05/11 - 12:59 Pressão social adoece trabalhador, dizem consultores Medo da demissão e mudanças na empresa são principais fatores Maria Carolina Nomura
Se na França a resposta encontrada por alguns trabalhadores que não aguentaram a pressão social no emprego foi o suicídio, no Brasil, a reação ainda é sofrer calado.
“Nós damos ‘um jeito’ e acabamos flexibilizando nossos valores para que se adaptem à realidade. É a ideologia do conformismo que faz com que nos acomodemos às situações mais estressantes”, diz Elisabete Adami dos Santos, coordenadora do curso de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Incapacidade - Mas o silêncio tem também o seu preço. Segundo Duílio Camargo, presidente da Comissão Técnica de Saúde Mental no Trabalho, da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), problemas mentais causados por estresse são a terceira causa de incapacidade para o trabalho.
Depressão, transtornos de ansiedade e do sono, pressão alta e perda de concentração são alguns exemplos do estrago que o estresse crônico pode causar, segundo Camargo.
Uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association (ISMA-BR), associação internacional que estuda o estresse e suas formas de prevenção, aponta que 70% dos trabalhadores brasileiros sofrem de estresse. Destes, 30% têm burnout - estado de exaustão física e mental.
Mudanças – Uma das origens para a pressão no trabalho é o temor da demissão. Segundo Elisabete, ações na empresa que provocam alterações drásticas no cotidiano, como fusões ou a contratação de um novo chefe, por exemplo, também contribuem para aumentar o estresse do trabalhador.
“Podem ser mudanças estruturais - que visam, basicamente, o aumento da produtividade e a diminuição de custos de produção, ou conjunturais - demissões e, consequentemente, acúmulo de tarefas”, exemplifica.
“Isto tudo afeta o que chamamos de clima organizacional e que acaba contaminando todas as pessoas da empresa. As manifestações mais assíduas no ambiente de trabalho têm sido os conflitos e a competitividade entre os trabalhadores”, complementa.
Prevenção - Uma das formas de se prevenir das doenças causadas pelo estresse, aponta o médico Duílio Camargo, é ter conhecimento de que se está com esse problema. “É preciso também diminuir o ritmo de trabalho. Sem falar, claro, das atividades físicas, alimentação saudável e lazer com a família. Quanto mais apoios sociais existirem, mais as pessoas conseguirão minimizar os efeitos do estresse no trabalho.”
Na prática, Célia Leão, consultora de etiqueta profissional, sugere ter uma conversa franca com o chefe e, então, acionar o departamento de recursos humanos. “E ir arrumando outro emprego”, diz.
Assertividade - Célia diz que o grande problema é falta de objetividade com que as pessoas se comunicam. “É preciso ser assertivo. Pergunte ao chefe se ele está satisfeito com seu trabalho e espere ouvir o feedback. Se for positivo, diga o quanto cresceu na função, que aprendeu muito, mas que está com estresse e precisa saber o que fazer antes que tenha de sair do trabalho por conta de uma licença médica”, aconselha.
Elisabete Adami afirma que se a empresa for estruturada e tiver uma área de recursos humanos atuante, com médicos do trabalho, é para onde os funcionários devem recorrer.
“A realidade das empresas de nosso país, no entanto, é na sua maioria formada por empresas de pequeno porte, o que já de antemão pressupõe um RH incipiente e, às vezes, inexistente. E, portanto, devem procurar a assistência médica oficial. Não há outra forma. Isto é um problema de saúde ocupacional e como tal deve ser tratado”, conclui.
Leia também:
- Onda de suicídios no trabalho acirra debate sobre pressão social
- Empresas combatem o estresse
- Aumento das ações de assédio moral gera polêmica
- Estudo aponta que ambiente de trabalho adoece professor
- Como agir se o chefe pede para fazer algo antiético?
Receba as atualizações do iG Empregos
