iG
iBestBrTurbo
 

27/10 - 11:14 Onda de suicídios no trabalho acirra debate sobre pressão social Prevenção em firmas é fundamental e pouco explorada, diz especialista Maria Carolina Nomura

A onda de suicídios na France Télécom impulsionou o debate sobre o estresse no trabalho e as atitudes que as organizações precisam tomar para melhorar a qualidade de vida de seus colaboradores. O governo francês chegou a dar um prazo para que grandes empresas adotem medidas concretas contra o estresse na corporação.

Mas não é apenas a França que está preocupada com a saúde mental dos empregados. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as taxas de suicídio cresceram 50% na última metade do século. Em 1990, o suicídio era a 12ª causa de morte no mundo. Em 2020, é esperado que chegue à 10ª posição.

O estudo, divulgado em 2006, afirma que o suicídio do trabalhador é o resultado de uma complexa interação entre as vulnerabilidades individuais e as condições estressantes do trabalho e da vida.

Prevenção - Apesar de nem todos os suicidas poderem ser diagnosticados e tratados com antecedência, os empregadores têm um papel importante na prevenção, diz o documento da OMS.

A prática, contudo, ainda é muito tímida nas companhias, de acordo com a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos de Intervenção sobre o Luto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“As empresas ainda esperam que aconteça um suicídio para, então, trabalharem essa questão, especialmente os efeitos que essa morte causa no ambiente de trabalho”, opina Maria Helena, que é também membro do Instituto 4 Estações, que lida com a questão do luto.

Efeitos - “O colega desse suicida pode pensar se o que aconteceu poderá ocorrer com ele também e começa a olhar para pontos de semelhança entre as suas vidas. O perigo está se esta pessoa chegar à conclusão de que as situações vividas por ambos eram muito parecidas e que a morte é, realmente, a única solução. Daí o suicídio pode se tornar uma epidemia”, explica. 

Segundo a psicóloga, o número de suicídios tem aumentado no Brasil. Apenas este ano, ela diz ter realizado um atendimento específico por mês em empresas por conta desse tipo de morte de funcionários. “No ano passado, o número não foi tão alto.”

Programas de qualidade de vida também são alternativas viáveis e que podem ajudar o trabalhador a encontrar o equilíbrio, aponta a tanatóloga e psicóloga Rosane Melo, mestre em psicologia pela Universidade Federal do Ceará.

Pressão social - Rosane diz que a pressão social - o assédio moral e a busca frenética por resultados em detrimento da saúde do trabalhador - pode estar ligada com o suicídio. Por isso, a prevenção no trabalho é fundamental.

“Esses fatores são, contudo, apenas o desencadeador da morte. Quando ocorre uma sobrecarga de estresse, por muita cobrança ou perigo da demissão, a pessoa fica mais vulnerável. Antes, certamente, ocorreram outros eventos que, somados, contribuíram para que o profissional se suicidasse”, afirma Rosane.

Brasil - Segundo uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), entre 1996 e 2005, 181 bancários cometeram suicídio no Brasil. Marcelo Finazzi, mestre em Administração pela UnB e autor do estudo, afirma que 23% dos entrevistados apresentaram transtornos mentais.

Outro estudo, encomendado por entidades de classe dos bancários em 2006, demonstrou que aproximadamente 18 mil profissionais do país sofriam, à época, ideação suicida (vontade de tirar a própria vida).

Segundo Finazzi, as taxas de suicídios e de doenças do trabalho estão ligadas às transformações ocorridas no mercado financeiro a partir da década de 1990. No período, 430 mil bancários foram demitidos no Brasil.

Para o autor, o estudo indica a necessidade de humanização das relações de trabalho nas empresas. “Falta o cumprimento da legislação trabalhista, metas de produção condizentes com a capacidade física e psicológica dos funcionários, assim como o treinamento dos gestores para lidar com os conflitos. O suicídio tem sido o desfecho trágico de muitos trabalhadores que sucumbem às violências do trabalho.”

Leia também:
- Onda de suicídios leva França a discutir cultura 'pós-privatizações'

- Aumento das ações de assédio moral gera polêmica

- Estudo aponta que ambiente de trabalho adoece professor

- Como agir se o chefe pede para fazer algo antiético?

Receba as atualizações do iG Empregos

Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG
Topo
Contador de notícias